9 de outubro de 2008

CONTO: O mestre dos brinquedos - parte 2

Leia a parte 1


O sol começava a se pôr quando, apressadamente, Joana terminava de se arrumar. Havia pedido a Dona Carminha, vizinha de longa data da família Gadelha, que lhe ajudasse. Mas onde estava o perfume? Haviam as duas botado abaixo o quarto da moça, e nada do frasco aparecer. Subitamente batidas apressadas tomaram a porta do quarto. Era Miguel. Ele dizia que chamavam Dona Carminha em sua casa. Ao que parece o senhor Ângelo havia perdido a dentadura outra vez. Maldita velhice, pensou Dona Carminha, seu marido perdia a dentadura, mas sabia como encontrar os biscoitos escondidos na cozinha. Desejou boa sorte a Joana e foi-se, dizendo que caso a moça não encontrasse o perfume amassasse algumas rosas no sutiã. Fazia isso quando era moça. A jovem ainda continuou angustiadamente a procurar seu perfume. Foi quando Miguel, ainda no quarto, pediu para que ela esperasse. Foi correndo ao seu cômodo e voltou quase que num piscar de olhos. Disse não saber onde se encontrava o perfume, mas tinha guardado um frasco de um elixir europeu para dar a Joana em seu próximo aniversário. Seria uma surpresa, gaguejou Miguel, como fazia nervosamente na presença da amada, mas ele não podia ficar de braços cruzados frente aquele desespero. Joana tateou o frasco e riu-se sozinha por achá-lo parecido com a garrafa de verniz utilizada pelo rapaz em sua oficina. Mas o cheiro era sem dúvida muito agradável, e Joana jogou rapidamente todo o conteúdo sobre seu corpo.

Com alguns minutos de atraso, o carteiro Lopes bateu à porta da Brinquedos Esplendor, que servia também de entrada para a casa de Joana. Foi atendido por Miguel, que disse que ela terminava de se perfumar. Sabe como são as garotas, disse o mestre dos brinquedos, sempre deixam tudo para a última hora. Lopes riu por educação e sentou-se em uma das cadeiras de madeira. Miguel perguntou se ele aceitava um café, e ele disse que não, pois não queria que seus dentes ficassem amarelados. O mestre dos brinquedos então se sentou ao lado do carteiro e começou a puxar assunto. No princípio, Lopes não deu bola. Não era para ver aquele jovem insistentemente chato que ele estava ali. Mas um assunto, repentinamente tocado pelo mestre dos brinquedos, parecia ser de seu interesse e lhe despertava curiosidade: Joana. Miguel então contou sobre como havia chegado até ali e o quanto teve estima pelo senhor Antenor Gadelha, antigo patriarca da casa. Proferiu sobre as recomendações que recebeu para proteger o bem mais importante da família Gadelha: sua filha primogênita. Mesmo sabendo dos defeitos dela, disse-o meio tossindo. Lopes rapidamente levantou as orelhas. Defeitos, pensou, imaginando quais tão bela dama poderia ter. Miguel fez-se de desentendido e tentou mudar de assunto, mas agora o carteiro que insistia por uma resposta. Excentricidades, o irmão torto da moça falou, que são um tanto mal recebidas pelas outras pessoas. Ao que terminou a frase, a porta dos fundos da loja, que dava acesso a casa de Joana, bateu, revelando a bela dama. Com um sorriso no rosto e trajando um belo vestido, ela estava linda como nunca, quase impecável, não fosse um detalhe: havia sangue espalhado por cima dos seus seios, passando ainda pelo seu pescoço e maçãs do rosto. Lopes deu um pulo para trás e perguntou-se por que ela sorriria coberta de sangue. Com um até mais ver grave, resultado de sua estrondosa voz, Lopes bateu forte a porta da Brinquedos Esplendor.

Ao ouvir a batida de porta, Joana, confusa, chamou pelo carteiro duas vezes. A sala principal da loja ainda ficou em silêncio por alguns segundos. Miguel fez algum barulho e se virou para Joana, que não esperou que o rapaz falasse qualquer coisa, partindo em disparada para dentro de casa. No canto dos lábios do rapaz, um curto sorriso se esboçava.

Joana chorou por semanas, como choram as mulheres ao fim dos seus primeiros amores. Nesse período, recusou várias propostas, pensando no quanto eram estúpidos os seres do sexo masculino. Mas o tempo trouxe de volta a esperança para Joana, que aos poucos começou a baixar a guarda. Assim vieram Matias, Tomás, Franco... Todos encantados pela moça e afugentados por seu perfume exótico, uma essência barata de alecrim e jasmim, cobrindo o cheiro metálico doce do sangue dos garotos mortos por Miguel. Um para cada pretendente da jovem.

No início, o acaso ajudava Miguel, que apenas ia para a porta nas madrugadas improdutivas e aguardava. Mas logo o desaparecimento dos moleques de rua chamou atenção da mídia e das autoridades. Por conta da falta de notoriedade das crianças, a maioria órfãs de rua, Miguel não teve maiores problemas. Matava e experimentava novas combinações entre as partes das vítimas, tomando-lhes emprestado seu sangue, para depois triturá-las cirurgicamente a pedaços tão pequenos que passavam despercebidos no lixo das casas da vizinhança. Mas os desaparecimentos fizeram que a área da Brinquedos Esplendor fosse evitada por moradores de rua no horário entre o pôr-do-sol e o amanhecer. A cada noite ficava mais difícil que os meninos viessem até ele. Então ele precisou improvisar.

Certa noite, Miguel teve de andar quatro quarteirões para encontrar uma criança na rua. Já era quase dia quando o pequeno Ricardo saía de casa para pegar o jornal, deparando-se com um jovem de vista cansada com um avião de madeira na mão. Simulando o vôo do brinquedo, Miguel pousou sobre a palma do moleque. Com um sorriso no rosto a criança tocou o artefato, mas logo o rejeitou, devolvendo-o ao mestre dos brinquedos. Lembrou o que seu pai falava sobre estranhos. Miguel insistiu, mas Ricardo começou a dar-lhe as costas. Exausto e temendo o fim próximo da madrugada, o mestre dos brinquedos puxou a mão de Ricardo e despedaçou o avião de madeira em sua testa. Antes que o menino pudesse desabar no chão, agarrou-o para levá-lo para loja apressadamente. Porém, antes de seguir caminho, voltou alguns passos com o garoto à tiracolo e pisoteou os restos do avião de brinquedo. Quão entediante se tornou, pensou ele.

CONTINUA EM UMA SEMANA.
Texto de Zé Wellington.
Ilustrado por fotografia de Demétrio Braga.
Agradecimento a Lara Aguiar pela idéia inconsciente.

Post-scriptum: agradeço a todos que estão acompanhando esse primeiro conto. Cada comentário e mensagem incendeia incentivo em meu coração. Pessoas vêm tendo dificuldades para postar comentários. Eu esclareço: se você tem Orkut ou uma conta no Gmail não é necessário cadastro. Deixe marcada a opção "conta Google/Blogger" e utilize seu login e senha destas contas (Orkut/Gmail). Aí é só comentar e ser feliz (ou me fazer feliz).

3 comentários:

raul ^^ disse...

esse conto ta ficando
cada vez mais intrigante, ta dando gosto acompanha-lo.

parabens zé, espero que vc crie
varios outros contos, tão bons
quanto este, para q possamos acompanhar o teu trabalho ^^

Geilson disse...

Grande Zé,
Mais uma vez você se superou! Esse novo projeto está melhor do que pensei... É tão envolvente a trama desse artesão em busca da jovem cega que, em alguns momentos, me sinto sentado ao seu lado só admirando o desespero dos pretendentes. Miguel é uma mistura perfeita de loucura e insanidade passional! Enredo maravilhoso! Li e recomendo! Continue assim, Meu Amigo, você vai longe!!

Wescleyb disse...

esse cara era normal, a culpa é da mulher q o levou para o mal caminho!
hehehheheehe
rpz...ta se tornando macabro...dps tu fala das minhas criaturas!