Firmino tinha completado trinta anos de polícia. Podia aposentar-se, e, por isso, os colegas já quase o expulsavam da chefatura. Mas ele não pensava em largar aquela vida. Era uma cidade pacata, ele pensava, com o trabalho que sempre desejou. Claro que houve os dias ruins: ladrões de mercearias, brigas de casais e, às vezes, moleques encrenqueiros sujando os muros da cidade. Mas o pulso do velho guarda sempre foi forte. Era pacífico na maior parte do tempo, mas olhava fundo nos olhos dos arruaceiros. Como abandonaria aquela vida? O que mais ele sabia fazer, a não ser acordar de manhã cedo, ler o seu jornal e partir para as ruas, como nas últimas décadas? Enviuvado, tivera uma vida solitária, pois logo seus filhos mais velhos saíram de casa. O primogênito, Ernesto, hoje era um grande engenheiro, formado na capital, casado e com duas lindas filhas. Franco, que veio após Ernesto, há pouco se tornara o novo médico da região. Para Firmino faltava apenas casar-lhe com uma boa moça para que pudesse constituir família. Havia o doutor tentado com uma bela garota da vizinhança, mas parece ter se traumatizado nessa experiência, para a frustração do pai. O único dos rebentos que parecia não aspirar às grandes carreiras era o mais novo, que teimava em seguir os passos do patriarca. Mas pais nunca querem que seus passos sejam seguidos, conjeturava Firmino, as outras profissões sempre parecem melhores do que a sua própria. Ser policial tinha seus riscos, e ele não desejava aquela rotina para seu herdeiro mais novo. Talvez a vida o mostrasse motivos para ele não querer encarar o tipo de gente que o velho guarda encarava todos os dias. Assim ele esperava. E agora, para mais aquele dia começar como qualquer outro, restava apenas que seu jovem caçula, Ricardo, lhe trouxesse as novidades do jornal diário local.
Enquanto isso, na parte de cima da Brinquedos Esplendor, Joana acordava ansiosa por mais um encontro. Não era a mesma ansiedade de sempre, por que suas últimas decepções haviam podado seu coração. Mas a empolgação de um novo amor ainda mexia com seus brios. Ela aguardava Jerônimo, grande advogado da cidade. Um grande partido, refletia a garota, dessa vez tudo pode ser diferente. Já tinha se aprontado toda: espartilho, vestido, sapatos, cabelos. E o perfume? Ah, claro, sorria-se a garota, Miguel havia dito que tinha mais um frasco. E desceu até a loja.
Na porta que separava a casa da fábrica de brinquedos, Joana teve que bater várias vezes até que Miguel, ofegante, abrisse a porta. Pela fresta, o mestre dos brinquedos disse que estava ocupado. Mas a moça o empurrou rapidamente e adentrou o ambiente. Ela precisava do perfume para logo, pois Jerônimo havia mandado recado dizendo que teria de estar à tarde em reunião com um importante cliente, o que faria que o encontro mudasse de piquenique vespertino para um almoço romântico. A garota sentou-se então na velha poltrona do pai, a esperar com a mão erguida que Miguel lhe trouxesse o frasco. Há alguns passos, encontrava-se Ricardo, amarrado e amordaçado sobre a mesa onde se serrava a madeira. Miguel suava frio com aquela situação. Será que não bastava ela não enxergar, Miguel tinha de perder a voz, ironizava a impaciente Joana. Miguel pediu algum tempo e perguntou se ela não podia aguardar que ele juntasse os pedaços da madeira que cortava. A garota reclamou, já empurrando Miguel para fora da velha oficina. Completamente alheio a suas vontades quando se tratava do seu grande amor, o rapaz foi obrigado a deixar Joana a sós com Ricardo na oficina.
A esta altura Firmino já convocava todos os guardas da região. Prioridade máxima, exclamava para os colegas mais próximos. Não demorou até que o experiente policial associasse o seqüestro de seu caçula ao desaparecimento dos garotos de rua no seu bairro, o que lhe punha desesperado. Mas sabia que o seqüestrador não podia estar muito longe. A fonte estaria ali, talvez na mesma rua de sua casa.
Apressadamente Miguel enchia o frasco de verniz com a essência de alecrim e jasmim. Por dentro, condenava-se obsessivamente por não ter extraído o ingrediente principal. Ao entrar de volta na oficina, deparou-se com Joana de pé em frente à mesa onde estava Ricardo, ainda imobilizado. A garota parecia compenetrada, mas não havia ainda notado Ricardo. Contava que seu pai nunca a deixara chegar perto daquelas máquinas. Que ele nunca a deixara chegar perto de nada. Antenor Gadelha sempre a via como a garotinha cega, que não conseguia dar nem dois passos sem ajuda. Todos os homens são iguais, pensava em voz alta, pensam que elas sempre precisarão deles para viver. Ao proferir essas palavras, Joana ligou raivosamente a serra que ficava em cima da mesa, que atravessou Ricardo ao meio impiedosamente, jorrando litros de sangue sobre a garota. Miguel estranhamente se deliciara com aquele momento. Teve vontade de abraçá-la e beijá-la, sentiu que aquele podia ser o momento certo. Mas, ao tocar na moça, ela pareceu entrar em choque, gritando desesperada pelo pai. Assustado, o mestre dos brinquedos imaginou que aqueles gritos atrairiam a atenção da vizinhança. Com uma mão na boca e outra no pescoço de Joana, começou a tentar calar-lhe a boca. Nada vai te acontecer, dizia com um sorriso no rosto o rapaz, estava ali para amá-la, confortá-la e dividir este momento especial.
Quase ao mesmo tempo, Firmino e um grupo de policiais invadia a fábrica de brinquedos, atraídos pelos gritos de Joana. Deparando-se com o jovem Ricardo sem vida sob a serra, Firmino ajoelhou-se à frente do corpo do filho mais novo, completamente perplexo. Era o que desconfiava, dizia o entristecido Firmino voltando-se para um dos colegas. Desde que seu filho Franco lhe contara sobre os terríveis hábitos que havia presenciado na casa dos Gadelha, imaginava que havia algo de perturbador na herdeira única daquela família. Miguel mal conseguia soltar o pescoço da desfalecida Joana, quando um dos policiais tentou separá-los. O mestre dos brinquedos estranhava que as pessoas mal o percebiam na sala.
Dois meses se passaram, e a Loja de Brinquedos Esplendor ainda tinha as portas baixas. Demorou até que Miguel conseguisse encarar aquele local. As vitrines estavam sujas e havia poeira e serragem por cima do balcão principal. Pensava em tudo que tinha acontecido, em como a população ainda o agradecia por interromper a carreira assassina ascendente de Joana. A morte de seu grande amor havia tirado um pouco do sentido da vida do jovem. Havia pensado em viajar a Paris e conhecer o resto do mundo, como sonhavam a maioria dos jovens de sua idade. Mas um velho avião de madeira sob seus pés fez pensar no mundo que ele havia criado ali mesmo. Talvez pudesse dar-lhes uma segunda chance, pensou o mestre dos brinquedos olhando para a peça de madeira.
FIM
Texto de Zé Wellington.
Ilustrado por vídeo de "Master of puppets", da banda Metallica com a orquestra de São Francisco.
Agradecimento a Lara Aguiar pela idéia inconsciente.
Post-scriptum: Finalmente chega ao fim "O mestre dos brinquedos". Esse era o final que você esperava? Peço a todos que deixem seus comentários sobre esse humilde pequeno conto e desde já agradeço a todos que acompanharam com elogios ou críticas esse blog. Próxima semana colocarei mais material meu, mas será a vez dos quadrinhos.
Show de ontem em Sobral
4 semanas atrás

5 comentários:
o fato dela ser acusada como a assassina era previsivel, mas não pensei q ele permitiria a prisão dela no seu lugar. No fim ele pensou mais em si mesmo do q nela.
Ficou interessente! aguardando outros contos!
gostei! mesmo... foi um bom final, com um gostinho de possivel mestre dos brinquedos 2! heheh
beijão, meu contista!
;*
Boa Zé. Apesar de eu ter achado que tudo ocorreu muito rápido, a história ficou bacana.
Talvez se tu tivesse detalhado mais o medo dos que eram atacados e a satisfação do Miguel em fazer e ver tudo aquilo tudo teria uma ênfase melhor, e conseqüentemente a história seria melhor.
Massa Zé, não sou fã de serial killers, nem curto histórias de psicopatas, na verdade nem curto metallica... Mas curti o mestre dos brinquedos, deu meio que um ar de nostalgia. Em um mix de filme de horror com novela de época, a mistura ficou boa, o ritmo ficou acelerado mas o desenrolar e o final foram legais e a musiquinha em francês... tudo a ver! Espero ver "O Mestre dos Brinquedos 2: Agora é pessoal". rsrsrs VLW.
E aguardo uma convocação para ter um trabalho nosso publicado aqui.
Zé Wellington, vulgo Stephen King... HAHAHAHAHAHA... Nossa esse conto arrepiou minha nuca é muito massa... dá próxima vez detalhe os assassinatos meticulosamente... coloque todas as perspectivas de cada assinato, cada ângulo e suspiro das personagens.
Muito bom, ficou muito bom... Raramente leio algo de tamanha qualidade.
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