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13 de jun. de 2009

Sebastião: sangue preto – parte 6

sebastiao_lua_cheia

Leia a parte 1.

Leia a parte 2.

Leia a parte 3.

Leia a parte 4.

Leia a parte 5.

Certa madrugada, a lua cheia imponente ilustrava o céu. Eu fazia minha ronda dentro da casa-grande como vigia. Como todas as outras vezes, flagrei Jorge abandonando seu quarto para o tradicional assédio as negras na senzala. O sono de Rita também era inquieto. Vestida apenas de uma camisola longa, com detalhes bordados quase transparentes, a filha do senhor começava a me provocar da porta do quarto de Lúcio. Suas madeixas claras caíam sobre seus dois pequenos e curvilíneos seios, que vazavam as pontas escuras dos seus mamilos. Entediada com a escala no quarto do irmão mais novo, ela entrava e saia do cômodo repetitivamente, e meus brios masculinos já começavam a perturbar. Desde a captura na África eu estava privado do contato com mulheres. Em verdade, nenhuma mulher havia me interessado como Umaiame havia feito. Com Rita não era diferente, pois a sua cor branca, afinal toda aquela opressão também nos fazia um tanto preconceituosos, e seu jeito oferecido não perfilavam meu tipo de esposa àquela época.

– Sebastião, tem uma ratazana no meu quarto... Tira essa nojenta daqui! – ordenava a senhorinha.

Nada eu podia fazer mais a não ser obedecê-la. Eu sabia que o rato ali era eu, entrando direto na ratoeira do destino.

Parado dentro do quarto, assisti Rita se despindo. Mesmo com apenas dezesseis anos, seu corpo estava quase completamente formado. Podia talvez alcançar os dois extremos de sua cintura com uma mão, de tão fina que era sua silhueta. Seus movimentos eram lentos e sedutores. Minha respiração acelerava, quando ela se aproximou de mim, desatando o cordão que segurava minha calça.

– Na próxima semana vou-me embora do engenho com meu irmão. Não verei um só macho durante longos anos. Não é um desperdício? – Rita tocava-se – Também é um desperdício um negro como tu. – disse a moça dando uma volta em torno de mim, que continuava paralisado, evitando o confronto com os olhos da menina – Disseram que tu eras príncipe na África. Agora entendo toda a tua majestade... – foram as últimas palavras de Rita, antes que eu a jogasse na cama e caísse por cima dela.

Não podia mais suportar aquele joguete da senhorinha. A abstinência a que eu havia me prostrado fez com que eu desse a ela o mais puro sexo. Rita não era virgem. Na certa, algum capataz mais corajoso do que eu já tinha se aventurado nas curvas do seu corpo. Ou mais de um. Ela sem dúvida sabia o que estava fazendo ali.

Entretido nos braços de Rita, não percebi que, subitamente, seu irmão mais velho invadia o quarto. Descamisado e ofegante, Jorge tinha em seus braços uma negra desacordada e seminua coberta de sangue.

– Rita, o que fazes que não vigias Lúcio... – Jorge subitamente interrompeu sua fala ao me ver por cima de Rita – Nêgo vagabundo, como ousa... – Jorge soltou a escrava, que desabou no chão, e me arrancou da cama, me jogando no canto do quarto.

Rita parecia assustada, mas apenas observou, sem protestar em minha defesa. Lúcio agarrou a irmã pelo braço e puxou-a para fora do quarto.

– Logo papai saberá como castigá-la por tamanho pecado, mas por agora tu me ajudas a conter Lúcio... Ele está pior do que o normal... Quanto a tu, negro – voltou-se para mim – terás também tua punição.

Ao proferir essas últimas palavras, Lúcio bateu a porta do quarto de Rita com força, e o barulho que se ouviu a seguir pareceu ser da chave na fechadura. Eu estava trancafiado. Corri para a janela, que, além da porta, era a única abertura do quarto. Logo percebi que não me serviria como rota de fuga, por estar no andar de cima do casarão de Antônio Maria. De lá, no entanto, me chamou a atenção a grande lua cheia que despontava naquela noite, um prefácio do que estava por vir. Pude ver ainda mais ao olhar para o térreo.

Espreitando sob as sombras, reconheci um vulto entre vários outros, armado com um pedaço de bambu. Do lado de fora, o negro Francisco preparava a revolta que há tempos tramara. Depois que comecei a morar com os capatazes, havia perdido o contato com a senzala, mas sabia que o motim logo se realizaria. Além dos escravos, vi pessoas não tão fortes e de peles menos escuras. Eram índios. Francisco provavelmente havia feito uma aliança com os nativos, que buscavam vingança. Um massacre tramado para um dia de lua cheia.

CONTINUA NA PRÓXIMA SEMANA

Texto por Zé Wellington.

7 de jun. de 2009

Sebastião: sangue preto – parte 5

Leia a parte 1.

Leia a parte 2.

Leia a parte 3.

Leia a parte 4.

Meu serviço na casa-grande era claro: vigiar os pertences de Antônio Maria e ajudar os capatazes a capturar escravos fugitivos. Eu saia do posto de escravo, inclusive não dormindo mais na senzala, e era elevado a capataz. Minha nova casa era junto dos meus colegas de trabalho. Mas achar que aquilo traria algum conforto a minha vida era pura ilusão. Dividia quarto com o capataz que fracassara na defesa do senhor de engenho, que me olhava com desdém sempre que nos cruzávamos. Os outros capatazes não ficavam para trás e não concordavam com um negro entre mamelucos. Como se não bastasse isso, meus ex-companheiros de senzala me condenavam por eu fazer parte das caçadas aos negros fugitivos.

Restava a mim uma vida solitária, resignada aos serviços, principalmente, no interior da casa-grande. Em alguns meses já estava a par das rotinas da casa e dos familiares do meu senhor. Jorge, por exemplo, trabalhava duro com o pai no engenho. Era um garoto com os hormônios à flor da pele, como se costuma dizer, e não aceitava que teria que se tornar padre, como queria Antônio Maria. Entraria no seminário em alguns dias, o que vez ou outra o revoltava e provocava grandes discussões à mesa. Já Rita parecia aceitar melhor a vida religiosa. Tinha uma beleza provocadora, que sabia usar despudoradamente. Freqüentemente se oferecia aos capatazes, que, mesmo tentados, sabiam que poderiam estar assinando seu contrato de morte e evitavam maiores intimidades. Mesmo dentro da casa-grande, pouco sabia a respeito do filho mais novo. As histórias da senzala realmente não eram exageradas. Lúcio, como era chamado, vivia enclausurado no seu quarto. Por motivo que eu desconhecia, ele não comia a mesa com o pai e os irmãos. Sua face era um mistério, e poucas vezes eu vira a porta do seu cômodo se abrir, exceto para a entrada de seu pai ou um de seus irmãos, que se revezavam nos seus cuidados. Quaisquer outras pessoas não tinham autorização para entrar ali. Tanto em seu quarto como nos demais da casa, imagens, crucifixos e todo tipo de acessório religioso preenchiam as portas e as paredes. Ficava imaginando se Antônio Maria não teria atribuído à religião, ou a falta dela, a morte de sua esposa e de seu primogênito. Sobre essa história, inclusive, alguns boatos corriam na casa.

O primeiro a se dizer era que esse tema era proibido na casa-grande. A última escrava que havia apenas pronunciado o nome de Lúcio à mesa havia sido chicoteada no tronco durante toda uma noite. Em rodas de conversa na cozinha, escutava as escravas sussurrando a história da família. Há poucos meses o senhor de engenho e seus familiares haviam chegado de uma viagem a Portugal que havia durado mais de dez anos. Durante esse tempo, a família vivera em Lisboa, e Antônio Maria apenas esporadicamente viajava ao Brasil, para se assegurar de que tudo estava em ordem em seu engenho.

Seria uma viagem a passeio que duraria alguns meses, não fosse uma repentina doença rara que acometeria Pedro, filho mais velho de Antônio Maria, na época ainda uma criança. Tendo consciência de que na Europa disporia de melhores recursos médicos, a família inteira decidiu ficar para que Pedro se tratasse. As escravas contam que durante a doença de Pedro, sua mãe, Dona Mocinha, descobrira que estava grávida. Pedro morreria algum tempo depois, próximo da data em que seu irmão Lúcio nasceria. Ao que parece Dona Mocinha teria morrido durante o parto, em decorrência da mesma doença de Pedro e do desgosto de perder seu primeiro filho, o que teria mexido profundamente com Antônio Maria. Mesmo com as duas dolorosas mortes, o senhor de engenho e os três filhos restantes continuaram no Velho Continente até Lúcio completar dez anos.

A volta definitiva de Antônio Maria ao Brasil também rendia histórias, no mínimo, exóticas. Lúcio havia sido trazido até o engenho dentro de uma de carruagem sem janelas, e ninguém viu sua transposição para o quarto em que estava. Às vezes me questionava se o filho mais novo do senhor do engenho realmente existia, ou ainda se o meu senhor apenas havia depositado a culpa das duas perdas que tivera no filho caçula, aprisionando-o como castigo. Isso eu saberia em breve.

CONTINUA NA PRÓXIMA SEMANA.

Texto por Zé Wellington.

31 de mai. de 2009

Sebastião: sangue preto – parte 4

sebastiao_indio Leia a parte 1.

Leia a parte 2.

Leia a parte 3.

Antes do nascer do sol, Antonio Maria, dez negros e cinco capatazes já estavam embrenhados na mata. A tribo que visitaríamos era a dos fulniôs. Depois de uma caminhada de mais de uma hora, estávamos em território indígena. De longe avistamos às ocas, feitas de palha pintada de urucum rubro e jenipapo negro, num posicionamento que lembrava bastante a minha tribo. A área gritava silêncio, e nenhum movimento nativo parecia próximo. Concluímos que ainda dormiam. A um gesto de Antonio Maria, um dos capatazes avançou rapidamente sobre as ocas, derramando um líquido sobre elas. Logo, ele foi acompanhado pelos outros capatazes. Os outros negros acompanharam o movimento, e começaram a encharcar as ocas com o que seria algum tipo de combustível. Em princípio, fiquei parado. Não queria fazer aquilo. Era como eu tivera perdido tudo. Via ali a minha própria aldeia sendo incendiada. Fiquei apenas observando, quando um capataz roçou uma faca nas minhas costas:

– Vamo, nêgo, queima tudo.

Em alguns minutos toda a aldeia estava banhada em combustível. Antonio Maria ordenou então a um dos capatazes que ateasse fogo nas ocas. O comandado logo o fez, mas quando a primeira oca iniciou a queimada, o capataz foi atingido com uma flecha no meio do peito. O tiro vinha do matagal, do lado posterior ao da nossa entrada. Da mesma direção, uma enxurrada de índios brotou de dentro da selva numa gritaria infernal. Certamente eles haviam notado nossa aproximação bem antes de chegarmos à tribo e já haviam abandonados suas ocas aguardando nossa chegada.

Armados com arcos e machados de pedra primitivos, os índios corriam em nossa direção. Os capatazes tinham facas e nós tínhamos pedaços de pau nas mãos. Foi um combate sanguinolento, e, apesar de estarmos em desvantagem numérica, nós éramos mais fortes e mais habilidosos. Derrubava facilmente dois índios com uma golpe só. Aquilo me fazia sentir mal. Estava lutando por minha vida, mas ao mesmo tempo defendendo o opressor. No meio de tudo, senti a falta de Francisco e alguns dos negros que estavam conosco. Cheguei a cogitar que haviam escapado no meio da confusão. Não demorou a que restassem poucos índios de pé. Muitos deles haviam se embrenhado em fuga no matagal. Francisco vinha de dentro da relva, alegando que havia perseguido um grupo, mas que os fugitivos haviam se dispersado próximo a um açude.

De longe, Antonio Maria apenas observava protegido por um capataz à sua frente e uma grande árvore nas suas costas. Mas de cima da árvore, um indígena preparava-se para um bote sobre meu senhor. Nunca entendi por que me importei com aquilo e corri em direção a Antônio Maria. O índio pulou e agarrou-se ao senhorio. Antes que o oponente pudesse enfiar uma machadinha na garganta de Antônio Maria, pulei sobre ele enfiando o pedaço de pau que tinha em minhas mãos no meio do seu peito. O oponente caiu desfalecido, levando também o senhor do engenho ao chão. Antonio Maria respirava rápido, recuperando-se do susto. Jogou o corpo do índio ensangüentado de lado e deu a mão para que eu pudesse levantá-lo. Ele olhou fixo em meus olhos enquanto o erguia para depois virar-se para o capataz que deveria tê-lo protegido.

– Inútil, quase que venho a óbito! – disse enquanto se limpava, para depois se voltar a mim novamente – Quanto a tu, que a graça divina te proteja no céu, por que em terra, a partir de agora, és um protegido de Antônio Maria.

Um tipo esquisito de satisfação tomou conta de mim naquele momento. Francisco me olhava mais uma vez desconfiado.

O confronto havia terminado. Enquanto o sol nascia, caminhávamos para o engenho. Ao chegarmos, os negros foram encaminhados para a moenda, para seus trabalhos rotineiros, com exceção de mim. Antonio Maria chamara-me até a sala da casa-grande. Quando entrei, dei de cara com a grandiosidade que era ser um senhor de engenho na época. A pomposa sala de estar do meu senhor tinha um piso de madeira lustrado, que era quase como andar sobre espelhos. Móveis grandiosos e um sofá acolchoado com tecido em veludo vermelho impunham-se no centro. Enfeites religiosos é que não faltavam: eram crucifixos e imagens para todos os gostos, de ouro, prata, mármore, pedra e madeira. Uma escrava lavava os pés de Antonio Maria, que estava sentado ao sofá conversando com um capataz.

– És um valoroso soldado! – disse quando notou minha aproximação – E é de guerreiros dessa majestia que preciso para que protejam minha prole. De agora em diante serás segurança de minhas propriedades. Que achas?

– O que meu senhor quiser – não poderia ser outra minha resposta.

CONTINUA NA PRÓXIMA SEMANA.

Texto por Zé Wellington.

9 de mai. de 2009

Sebastião: Sangue preto – parte 1

castigo_escravo

Era uma senzala escura e imunda. Cheirava a fezes e comida podre. Negros acorrentados em trio, pelas mãos e pelos pés, num elo que nas pontas conectava-se ao chão. As correntes ficavam estiradas de forma que não possibilitassem nenhum movimento: o máximo que se podia era ficar sentado, ao custo dos movimentos dos outros dois colegas com quem se dividia os laços de aço. Eu estava cansado e faminto.

Não sei com precisão quantos dias durou aquela viagem. No navio, eu estava amarrado com cipó numa posição pela qual abraçava minhas canelas. Um pedaço de bambu enfiado entre meus braços e minhas pernas impedia qualquer tipo de mobilidade. Junto comigo, por volta de cem negros no mesmo conforto, enfileirados, de forma a aproveitar da melhor forma possível o espaço do porão da embarcação. Éramos escravos arrancados de nossas famílias.

Até alguns dias antes daquela viagem, eu iria me casar. Não um tipo de casamento como os brancos conheciam na época. Eu havia lutado contra Dumbaô, forma como se pronunciaria o nome do meu melhor amigo nessa língua, e ele morrera em minhas mãos como um bravo oponente, num costume de minha tribo que talvez causasse estranheza à cultura branca. Mas a tradição de lutar por uma esposa não era milenar, e sim uma medida tomada por nosso líder, meu pai, para resolver o problema da falta de mulheres em nossa tribo, fêmeas essas que, uma a uma, estavam sendo tomadas pelo homem branco, ainda crianças, para servir de empregadas ou prostitutas em suas sociedades altamente desenvolvidas. Ficar com Umaiame havia me custado preciosas amizades e alguns túmulos em nosso cemitério.

Na noite do casamento a maior festa que minha tribo já viu se consumou. Como filho do líder da tribo, a mim se passaria o comando do meu povo. Mas eles sabiam que naquela noite estaríamos embriagados com nossas raízes alucinógenas e que não insultaríamos nossos deuses derramando sangue numa cerimônia sagrada. Eles, caçadores de escravos, tinham ainda fogo e pólvora.

Quando os tiros e explosões começaram, meu povo não sabia de que lado eles vinham. Campeando de moitas e ocultos pelas trevas da noite, os brancos acertavam de longe meus irmãos. Atordoados, corríamos sem direção definida. Organizada pelas táticas de guerra de meu pai, nossa tribo havia resistido a outros ataques tempos atrás, mas o barulho da pólvora ensurdecia nossos pensamentos.

Segurando Umaiame, adentrei a selva, correndo desesperado, ignorando os ferimentos nas pernas causados pela vegetação e pelo terreno pedregoso. Ela transpirava, e era impossível diferenciar sua respiração rápida dos soluços amedrontados. Mas o estrondo de um tiro ressoou dentro do meu peito. Ainda correndo, vasculhei meu corpo com minha mão livre. Eu parecia inteiro. Subitamente minha corrida foi interrompida por Umaiame, que ancorava nossa escapada. Eu não deveria ter parado. Não deveria ter chorado por ela. Ela morria e ia para a companhia de Nanã, que protegeria sua alma e a plantaria para que ela pudesse renascer como uma fruta vermelha. Por isso minha tribo não chorava os mortos. Tentei em vão despertar Umaiame. Não deveria ser assim. Ela não deveria morrer ali. O tempo por mim desperdiçado aproximou nossos perseguidores. Quando ouvi os passos, já era tarde. Meu mundo veio abaixo com uma coronhada na nuca.

O que se passou após minha captura não é digno de nota. Logo me dei conta de que os brancos haviam matado somente mulheres, crianças e doentes. Eles procuravam aqueles que pudessem trabalhar na sua terra. Sua nova terra.

Dentro do navio que me traria ao Novo Mundo, meu povo foi misturado com outros com um único ponto em comum: a cor. Negros de todas as tonalidades, crenças e idiomas dividiam espaço no porão. Tive sorte, se é que assim posso chamar, e fui um dos poucos que sobreviveu à alimentação precária, aos maus tratos e às doenças contraídas durante a viagem. No desembarque perdi o contato com meus conterrâneos e já não tinha certeza se ainda vivia alguém da minha tribo.

Era algo próximo ao ano de 1630, até onde me lembro. É difícil ter certeza, por que ainda não entendia o sistema de contagem de tempo branco. Eu tinha por volta de vinte e cinco anos. Fui levado junto com outros escravos até uma propriedade rural há alguns quilômetros do litoral daquilo que se chamaria Brasil. Era o engenho do senhor Antônio Maria Coelho, neto bastardo de Duarte Coelho Pereira, português que no século que havia passado fora donatário da capitania de Pernambuco. Estávamos no período áureo da cana-de-açúcar, grande motivo de eu estar ali.

Fui jogado na senzala que me acolheria como lar e acorrentado nu a outros dois escravos. Logo descobri que os dois vinham de uma mesma tribo, que, acredito, deveria ser próxima da minha, já que conversavam em um dialeto muito parecido com o meu. Estavam já há alguns meses naquele lugar. O mais novo era um jovem forte que deveria ostentar uma idade próxima da minha. O outro, um velho com no mínimo sessenta anos, tinha uma barba branca como osso raspado e olhar que apontava uma experiência secular.

– Por que os ventos de Oyá te trouxeram nesse caminho, meu filho? – disse o velho lentamente, numa expressão cansada e usando velhas palavras do meu idioma.

– Os brancos atacaram covardemente minha tribo durante meu casamento. Mataram meu pai e minha esposa e incendiaram nossas casas – respondi sem poder olhá-lo nos olhos, por conta da posição em que estávamos acorrentados.

– A opressão branca continua. O que eles querem? Toda a terra para eles? Todos os homens da outra cor a seu dispor? – discursava o mais novo em voz alta, como se quisesse atingir a todos os escravos na senzala – E quando iremos devolver essa opressão?

– Quando Ogum achar que é tempo – retrucou o velho sábio num tom de voz tranqüilizante.

– Em Palmares o tempo chegou! E é pra lá que nossa gente deve ir! – respondeu o jovem, que foi seguido de uma gritaria de dentro da senzala.

Logo eu confirmaria que já há muito tempo a semente da revolta estava plantada naquele lugar.

CONTINUA PRÓXIMA SEMANA.

Leia a parte 2.

Leia a parte 3.

Texto por Zé Wellington.


Post-Scriptum: No ar meu segundo conto para o blog (o primeiro foi Mestre dos brinquedos, lembra?)! Espero comentários daqueles que leem esse blog solitário. Próxima semana tem mais!