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21 de jun. de 2009

Sebastião: sangue preto – parte 7

Leia a parte 1.
Leia a parte 2.
Leia a parte 3.
Leia a parte 4.
Leia a parte 5.
Leia a parte 6.

Senti meu sangue ferver. Eu precisava fazer alguma coisa. Procuraria avisar ao meu senhor? Juntava-me aos negros lutando por minha liberdade? Prostrava-me no quarto e esperava os eventos desencadearem-se? Na certa não seria esta última opção, afinal eu nunca fora de deixar o destino transcorrer a revelia sem antes tentar forçar um desvio.

13 de jun. de 2009

Sebastião: sangue preto – parte 6

sebastiao_lua_cheia

Leia a parte 1.

Leia a parte 2.

Leia a parte 3.

Leia a parte 4.

Leia a parte 5.

Certa madrugada, a lua cheia imponente ilustrava o céu. Eu fazia minha ronda dentro da casa-grande como vigia. Como todas as outras vezes, flagrei Jorge abandonando seu quarto para o tradicional assédio as negras na senzala. O sono de Rita também era inquieto. Vestida apenas de uma camisola longa, com detalhes bordados quase transparentes, a filha do senhor começava a me provocar da porta do quarto de Lúcio. Suas madeixas claras caíam sobre seus dois pequenos e curvilíneos seios, que vazavam as pontas escuras dos seus mamilos. Entediada com a escala no quarto do irmão mais novo, ela entrava e saia do cômodo repetitivamente, e meus brios masculinos já começavam a perturbar. Desde a captura na África eu estava privado do contato com mulheres. Em verdade, nenhuma mulher havia me interessado como Umaiame havia feito. Com Rita não era diferente, pois a sua cor branca, afinal toda aquela opressão também nos fazia um tanto preconceituosos, e seu jeito oferecido não perfilavam meu tipo de esposa àquela época.

– Sebastião, tem uma ratazana no meu quarto... Tira essa nojenta daqui! – ordenava a senhorinha.

Nada eu podia fazer mais a não ser obedecê-la. Eu sabia que o rato ali era eu, entrando direto na ratoeira do destino.

Parado dentro do quarto, assisti Rita se despindo. Mesmo com apenas dezesseis anos, seu corpo estava quase completamente formado. Podia talvez alcançar os dois extremos de sua cintura com uma mão, de tão fina que era sua silhueta. Seus movimentos eram lentos e sedutores. Minha respiração acelerava, quando ela se aproximou de mim, desatando o cordão que segurava minha calça.

– Na próxima semana vou-me embora do engenho com meu irmão. Não verei um só macho durante longos anos. Não é um desperdício? – Rita tocava-se – Também é um desperdício um negro como tu. – disse a moça dando uma volta em torno de mim, que continuava paralisado, evitando o confronto com os olhos da menina – Disseram que tu eras príncipe na África. Agora entendo toda a tua majestade... – foram as últimas palavras de Rita, antes que eu a jogasse na cama e caísse por cima dela.

Não podia mais suportar aquele joguete da senhorinha. A abstinência a que eu havia me prostrado fez com que eu desse a ela o mais puro sexo. Rita não era virgem. Na certa, algum capataz mais corajoso do que eu já tinha se aventurado nas curvas do seu corpo. Ou mais de um. Ela sem dúvida sabia o que estava fazendo ali.

Entretido nos braços de Rita, não percebi que, subitamente, seu irmão mais velho invadia o quarto. Descamisado e ofegante, Jorge tinha em seus braços uma negra desacordada e seminua coberta de sangue.

– Rita, o que fazes que não vigias Lúcio... – Jorge subitamente interrompeu sua fala ao me ver por cima de Rita – Nêgo vagabundo, como ousa... – Jorge soltou a escrava, que desabou no chão, e me arrancou da cama, me jogando no canto do quarto.

Rita parecia assustada, mas apenas observou, sem protestar em minha defesa. Lúcio agarrou a irmã pelo braço e puxou-a para fora do quarto.

– Logo papai saberá como castigá-la por tamanho pecado, mas por agora tu me ajudas a conter Lúcio... Ele está pior do que o normal... Quanto a tu, negro – voltou-se para mim – terás também tua punição.

Ao proferir essas últimas palavras, Lúcio bateu a porta do quarto de Rita com força, e o barulho que se ouviu a seguir pareceu ser da chave na fechadura. Eu estava trancafiado. Corri para a janela, que, além da porta, era a única abertura do quarto. Logo percebi que não me serviria como rota de fuga, por estar no andar de cima do casarão de Antônio Maria. De lá, no entanto, me chamou a atenção a grande lua cheia que despontava naquela noite, um prefácio do que estava por vir. Pude ver ainda mais ao olhar para o térreo.

Espreitando sob as sombras, reconheci um vulto entre vários outros, armado com um pedaço de bambu. Do lado de fora, o negro Francisco preparava a revolta que há tempos tramara. Depois que comecei a morar com os capatazes, havia perdido o contato com a senzala, mas sabia que o motim logo se realizaria. Além dos escravos, vi pessoas não tão fortes e de peles menos escuras. Eram índios. Francisco provavelmente havia feito uma aliança com os nativos, que buscavam vingança. Um massacre tramado para um dia de lua cheia.

CONTINUA NA PRÓXIMA SEMANA

Texto por Zé Wellington.

7 de jun. de 2009

Sebastião: sangue preto – parte 5

Leia a parte 1.

Leia a parte 2.

Leia a parte 3.

Leia a parte 4.

Meu serviço na casa-grande era claro: vigiar os pertences de Antônio Maria e ajudar os capatazes a capturar escravos fugitivos. Eu saia do posto de escravo, inclusive não dormindo mais na senzala, e era elevado a capataz. Minha nova casa era junto dos meus colegas de trabalho. Mas achar que aquilo traria algum conforto a minha vida era pura ilusão. Dividia quarto com o capataz que fracassara na defesa do senhor de engenho, que me olhava com desdém sempre que nos cruzávamos. Os outros capatazes não ficavam para trás e não concordavam com um negro entre mamelucos. Como se não bastasse isso, meus ex-companheiros de senzala me condenavam por eu fazer parte das caçadas aos negros fugitivos.

Restava a mim uma vida solitária, resignada aos serviços, principalmente, no interior da casa-grande. Em alguns meses já estava a par das rotinas da casa e dos familiares do meu senhor. Jorge, por exemplo, trabalhava duro com o pai no engenho. Era um garoto com os hormônios à flor da pele, como se costuma dizer, e não aceitava que teria que se tornar padre, como queria Antônio Maria. Entraria no seminário em alguns dias, o que vez ou outra o revoltava e provocava grandes discussões à mesa. Já Rita parecia aceitar melhor a vida religiosa. Tinha uma beleza provocadora, que sabia usar despudoradamente. Freqüentemente se oferecia aos capatazes, que, mesmo tentados, sabiam que poderiam estar assinando seu contrato de morte e evitavam maiores intimidades. Mesmo dentro da casa-grande, pouco sabia a respeito do filho mais novo. As histórias da senzala realmente não eram exageradas. Lúcio, como era chamado, vivia enclausurado no seu quarto. Por motivo que eu desconhecia, ele não comia a mesa com o pai e os irmãos. Sua face era um mistério, e poucas vezes eu vira a porta do seu cômodo se abrir, exceto para a entrada de seu pai ou um de seus irmãos, que se revezavam nos seus cuidados. Quaisquer outras pessoas não tinham autorização para entrar ali. Tanto em seu quarto como nos demais da casa, imagens, crucifixos e todo tipo de acessório religioso preenchiam as portas e as paredes. Ficava imaginando se Antônio Maria não teria atribuído à religião, ou a falta dela, a morte de sua esposa e de seu primogênito. Sobre essa história, inclusive, alguns boatos corriam na casa.

O primeiro a se dizer era que esse tema era proibido na casa-grande. A última escrava que havia apenas pronunciado o nome de Lúcio à mesa havia sido chicoteada no tronco durante toda uma noite. Em rodas de conversa na cozinha, escutava as escravas sussurrando a história da família. Há poucos meses o senhor de engenho e seus familiares haviam chegado de uma viagem a Portugal que havia durado mais de dez anos. Durante esse tempo, a família vivera em Lisboa, e Antônio Maria apenas esporadicamente viajava ao Brasil, para se assegurar de que tudo estava em ordem em seu engenho.

Seria uma viagem a passeio que duraria alguns meses, não fosse uma repentina doença rara que acometeria Pedro, filho mais velho de Antônio Maria, na época ainda uma criança. Tendo consciência de que na Europa disporia de melhores recursos médicos, a família inteira decidiu ficar para que Pedro se tratasse. As escravas contam que durante a doença de Pedro, sua mãe, Dona Mocinha, descobrira que estava grávida. Pedro morreria algum tempo depois, próximo da data em que seu irmão Lúcio nasceria. Ao que parece Dona Mocinha teria morrido durante o parto, em decorrência da mesma doença de Pedro e do desgosto de perder seu primeiro filho, o que teria mexido profundamente com Antônio Maria. Mesmo com as duas dolorosas mortes, o senhor de engenho e os três filhos restantes continuaram no Velho Continente até Lúcio completar dez anos.

A volta definitiva de Antônio Maria ao Brasil também rendia histórias, no mínimo, exóticas. Lúcio havia sido trazido até o engenho dentro de uma de carruagem sem janelas, e ninguém viu sua transposição para o quarto em que estava. Às vezes me questionava se o filho mais novo do senhor do engenho realmente existia, ou ainda se o meu senhor apenas havia depositado a culpa das duas perdas que tivera no filho caçula, aprisionando-o como castigo. Isso eu saberia em breve.

CONTINUA NA PRÓXIMA SEMANA.

Texto por Zé Wellington.

6 de jun. de 2009

31 de mai. de 2009

Sebastião: sangue preto – parte 4

sebastiao_indio Leia a parte 1.

Leia a parte 2.

Leia a parte 3.

Antes do nascer do sol, Antonio Maria, dez negros e cinco capatazes já estavam embrenhados na mata. A tribo que visitaríamos era a dos fulniôs. Depois de uma caminhada de mais de uma hora, estávamos em território indígena. De longe avistamos às ocas, feitas de palha pintada de urucum rubro e jenipapo negro, num posicionamento que lembrava bastante a minha tribo. A área gritava silêncio, e nenhum movimento nativo parecia próximo. Concluímos que ainda dormiam. A um gesto de Antonio Maria, um dos capatazes avançou rapidamente sobre as ocas, derramando um líquido sobre elas. Logo, ele foi acompanhado pelos outros capatazes. Os outros negros acompanharam o movimento, e começaram a encharcar as ocas com o que seria algum tipo de combustível. Em princípio, fiquei parado. Não queria fazer aquilo. Era como eu tivera perdido tudo. Via ali a minha própria aldeia sendo incendiada. Fiquei apenas observando, quando um capataz roçou uma faca nas minhas costas:

– Vamo, nêgo, queima tudo.

Em alguns minutos toda a aldeia estava banhada em combustível. Antonio Maria ordenou então a um dos capatazes que ateasse fogo nas ocas. O comandado logo o fez, mas quando a primeira oca iniciou a queimada, o capataz foi atingido com uma flecha no meio do peito. O tiro vinha do matagal, do lado posterior ao da nossa entrada. Da mesma direção, uma enxurrada de índios brotou de dentro da selva numa gritaria infernal. Certamente eles haviam notado nossa aproximação bem antes de chegarmos à tribo e já haviam abandonados suas ocas aguardando nossa chegada.

Armados com arcos e machados de pedra primitivos, os índios corriam em nossa direção. Os capatazes tinham facas e nós tínhamos pedaços de pau nas mãos. Foi um combate sanguinolento, e, apesar de estarmos em desvantagem numérica, nós éramos mais fortes e mais habilidosos. Derrubava facilmente dois índios com uma golpe só. Aquilo me fazia sentir mal. Estava lutando por minha vida, mas ao mesmo tempo defendendo o opressor. No meio de tudo, senti a falta de Francisco e alguns dos negros que estavam conosco. Cheguei a cogitar que haviam escapado no meio da confusão. Não demorou a que restassem poucos índios de pé. Muitos deles haviam se embrenhado em fuga no matagal. Francisco vinha de dentro da relva, alegando que havia perseguido um grupo, mas que os fugitivos haviam se dispersado próximo a um açude.

De longe, Antonio Maria apenas observava protegido por um capataz à sua frente e uma grande árvore nas suas costas. Mas de cima da árvore, um indígena preparava-se para um bote sobre meu senhor. Nunca entendi por que me importei com aquilo e corri em direção a Antônio Maria. O índio pulou e agarrou-se ao senhorio. Antes que o oponente pudesse enfiar uma machadinha na garganta de Antônio Maria, pulei sobre ele enfiando o pedaço de pau que tinha em minhas mãos no meio do seu peito. O oponente caiu desfalecido, levando também o senhor do engenho ao chão. Antonio Maria respirava rápido, recuperando-se do susto. Jogou o corpo do índio ensangüentado de lado e deu a mão para que eu pudesse levantá-lo. Ele olhou fixo em meus olhos enquanto o erguia para depois virar-se para o capataz que deveria tê-lo protegido.

– Inútil, quase que venho a óbito! – disse enquanto se limpava, para depois se voltar a mim novamente – Quanto a tu, que a graça divina te proteja no céu, por que em terra, a partir de agora, és um protegido de Antônio Maria.

Um tipo esquisito de satisfação tomou conta de mim naquele momento. Francisco me olhava mais uma vez desconfiado.

O confronto havia terminado. Enquanto o sol nascia, caminhávamos para o engenho. Ao chegarmos, os negros foram encaminhados para a moenda, para seus trabalhos rotineiros, com exceção de mim. Antonio Maria chamara-me até a sala da casa-grande. Quando entrei, dei de cara com a grandiosidade que era ser um senhor de engenho na época. A pomposa sala de estar do meu senhor tinha um piso de madeira lustrado, que era quase como andar sobre espelhos. Móveis grandiosos e um sofá acolchoado com tecido em veludo vermelho impunham-se no centro. Enfeites religiosos é que não faltavam: eram crucifixos e imagens para todos os gostos, de ouro, prata, mármore, pedra e madeira. Uma escrava lavava os pés de Antonio Maria, que estava sentado ao sofá conversando com um capataz.

– És um valoroso soldado! – disse quando notou minha aproximação – E é de guerreiros dessa majestia que preciso para que protejam minha prole. De agora em diante serás segurança de minhas propriedades. Que achas?

– O que meu senhor quiser – não poderia ser outra minha resposta.

CONTINUA NA PRÓXIMA SEMANA.

Texto por Zé Wellington.

24 de mai. de 2009

Sebastião: sangue preto – parte 3

engenho_sebastiao

Leia a parte 1.

Leia a parte 2.

Certa época, o engenho começou a passar por alguns furtos. Vários escravos foram castigados, até que se descobrisse que os assaltos eram obras de índios da região. Isso irritou bastante nosso senhor, que na fundação do seu engenho fizera vários acordos com indígenas para que não tivesse tais incômodos.

– Querem guerra, que se engasguem com guerra! – bradava Antonio Maria, prometendo retaliação.

Numa noite, Antonio Maria chamou Raimundo, nome do velho sábio que eu havia conhecido na minha chegada à senzala, e o imbuiu da tarefa de escolher os dez escravos mais aptos para um confronto com os larápios. Eu havia sido escolhido, junto com Francisco, o jovem que dividiu as correntes comigo, e Raimundo, o velho ancião. Na madrugada seguinte invadiríamos a tribo para tomar as devidas satisfações.

Como num costume da tribo de meus colegas de guerra, iniciou-se na senzala naquela noite um ritual de preparação para o combate do dia seguinte. Os escravos começaram a se organizar numa roda no meio do terreiro. A percussão da capoeira estava lá, mas muito mais compassada. No centro, Raimundo, sentado num tamborete de madeira, fumando um cachimbo de cheiro forte. Subitamente a percussão começou a ganhar velocidade, e as batidas ficaram mais intensas, quase ditando o ritmo do coração dos presentes. As mulheres mais velhas cantavam em voz alta, algumas chorando, versos que eu não conseguia traduzir. Elas se dirigiam a Raimundo. Nunca havia visto nada parecido na minha tribo. Tínhamos nossos costumes que evocavam o sobrenatural, mas nada semelhante. O clima ia ficando denso, e um aperto inexplicável tomava conta do meu peito. Estava com medo. Não demorou a que o velho Raimundo tremesse dos pés a cabeça. Seus olhos se reviravam e dos cantos da sua boca uma espuma esbranquiçada brotava. Francisco segurava seus ombros, para que o velho não se desequilibrasse. Alguns minutos depois, Raimundo estava imóvel.

– Unêgoquissiprepariproquevem... – Raimundo falava rápido, de um jeito quase incompreensível, de olhos revirados como se estivesse possuído – vaibatê nu brancu, vai? U brancu é raçarruim.... mas dá de comer... Baiani vailánumvai? – e caía numa risada amedrontadora.

– Eu to aqui, meu Preto Velho, pra te escutar – disse Francisco, ao ver seu nome africano sendo pronunciado em meio à tempestade de palavras.

– Baiani vaichegarláevaifazer... numvai Baiani? Agora sioutronumvai... Baiani deixa... deixa Baiani...

– Baiani deixa, Preto Velho... – não sei se Francisco estava entendendo o que o incorporado Raimundo dizia, mas ele concordava serenamente, já de joelhos a sua frente.

– Tem mais guerrêro aqui... Cudjobá taqui? – disse Raimundo, balançando a cabeça de um lado a outro como se estivesse buscando alguma coisa.

Raimundo havia proferido meu nome africano. No início não sabia se respondia aquele chamado. Ainda tentava digerir aquela situação, pensando se isso não ofendia minhas próprias crenças. Francisco já havia me falado, certa vez, sobre esse tipo de possessão por espíritos antigos, sobre as orientações que eles recebiam deles. Talvez o homem branco ignorasse o que não conhecia. Negros e índios sempre foram tomados por ignorantes dentro de suas crenças, crenças essas que explicavam coisas que os brancos certamente não entendem até hoje. Mesmo depois de muitos estudos, vejo que nós chegamos bem mais perto de Deus com nossa cultura de ignorantes do que o branco, que preferiu ser temente a ele e prostrar-se na sua “bendita ignorância”. Não seria, então, o branco o ignorante?

– Cudjobá numvem? Tutemtudo só num tem medo, Cudjobá... vemperto.

Acabei por me achegar em Raimundo, que, ao notar minha aproximação, começou novamente a ter espasmos, ainda mais fortes que os do início da sessão.

– Cudjobá vailonge... Nummorremascorrequemorrertuquer... Branquin mal! Branquin mal! – Raimundo começava a gritar, enquanto Francisco e duas negras o seguravam. O velho começou a repetir a mesma palavra, fácil de distinguir – Sanguisanguisanguisanguisanguisangui...

Se antes aquilo tudo já havia mexido com meus brios, agora eu suava frio e respirava com dificuldade. Eu tinha ouvido “sangue”? Não entendia o que ele queria dizer com aquilo. Foi quando Raimundo caiu desmaiado aos meus pés. Enquanto tentava acordar o ancião, Francisco me olhou com uma expressão de desconfiança.

Não preguei os olhos por um minuto naquela noite. Algo estava terrivelmente errado. Rezei para todas as minhas divindades até adormecer. Meu sono foi povoado por uma série de pesadelos. Via Umaiame correndo, fugindo de um grande lobo. Ela chorava e gritava meu nome. De algum lugar eu tentava estirar meus braços para alcançá-la, mas não conseguia, por que enquanto ela corria do lobo ela também acabava por se afastar de mim mesmo. O sonho cortava subitamente para a senzala, onde Raimundo chorava, gritando possuído. Seus olhos vertiam um sangue denso e ele perguntava a mim se eu queria morrer. Acordei com o barulho dos outros escravos preparando-se para a jornada.

CONTINUA NA PRÓXIMA SEMANA.

Texto por Zé Wellington.

17 de mai. de 2009

Sebastião: Sangue preto – parte 2

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Leia a parte 1.

Depois de um ano cuidando das plantações de cana, começava a me acostumar com meu novo modo de vida. Num dia trabalhava por volta de doze horas e com sorte me alimentava duas vezes. Já falava um português compreensível, mas com as particularidades criadas pelos negros. Não via mais do que a senzala e as plantações. No caminho entre esses dois pontos, contemplava de longe o casarão do meu senhor. Era a típica casa-grande dos coronéis da época, com uma estrutura pomposa e um alpendre que rodeava toda a propriedade. Tinha um amarelo morto como cor predominante e uma grande porta de madeira na frente, talhada com motivos religiosos. O senhor Antonio Maria tinha vários capatazes a seu dispor, que rodeavam a propriedade como seguranças pessoais da família.

Sobre os familiares do meu senhor, conhecia pouco. As poucas informações que tínhamos eram trazidas por quatro negras que cuidavam da casa-grande durante o dia. Antonio Maria era viúvo e tivera quatro filhos. O filho mais velho morrera em uma viagem a Portugal quando tinha apenas dez anos de idade, de doença desconhecida, que também matara a mãe, dona Mocinha de Albuquerque Coelho. O segundo filho era Jorge, jovem que ajudava o pai na administração do engenho e presença constante na senzala, onde vez ou outra raptava escravas ao cair do sol. Rita era a terceira filha, uma bela moça no auge de seus dezesseis anos. Não se sabia muito sobre o quarto filho, que, segundo as amas, vivia enclausurado num quarto por extremos cuidados que o pai tinha para com ele. Ao que parecia, era de intenção de Antonio Maria dar orientação religiosa aos três filhos, para que exercessem carreira dentro da Igreja, fato um tanto incomum na época, quando os grandes barões da cana-de-açúcar casavam seus filhos por interesses comerciais. As escravas que trabalhavam na casa diziam que após a morte da esposa e do filho, o senhor Antônio Maria agarrou-se veementemente às suas inclinações católicas.

A religião era algo realmente forte dentro do engenho. Fazia exatamente um ano que eu havia sido trazido à propriedade, quando Antonio Maria mandou batizar todos os negros do arraial. Mesmo sendo tal ato uma prática comum na colonização católica européia, a princípio o padre da capela local achou que aquilo seria uma heresia, por acreditar que os negros eram seres renunciados por Deus. Nada que uma pomposa doação para a paróquia não resolvesse. Um a um, todos os negros foram recebidos pelo padre para a efusão. Um adicional dessa celebração seria ganharmos novos nomes, inspirados nos mártires da Igreja Católica.

– Como é teu nome, escravo? – retrucou o padre, me olhando seriamente.

– I Cudjobá Kamuká. – respondi prontamente usando ainda o sotaque forte do meu idioma.

– Santo Pai! Parece uma sinfonia proferida por Satanás! De agora em diante te chamarás Sebastião! – bradou o santo padre, jogando violentamente uma caneca de água sobre minha cabeça.

Assim eu ganhava um novo nome, que por decreto de nosso senhor deveria ser utilizado imediatamente. Nosso temor pelos castigos físicos impostos no engenho nos fez rapidamente acatar nossas novas identificações.

Ganhar um novo nome teve suas vantagens. Nossa conversão em católicos fazia nosso senhor, vez ou outra, nos olhar com mais benevolência. Não que isso significasse menores punições. O peso do chicote ainda era o mesmo para aqueles que saíssem da linha. O maior benefício talvez tenha sido nos proporcionar certos momentos de lazer durante feriados religiosos. Em “dias de santo”, nossa jornada terminava mais cedo, e apesar de ainda aprisionados na senzala, éramos liberados das correntes. Recebíamos aguardente e arroz cozido, ingredientes para uma típica comemoração africana.

Em uma dessas festas entrei em contato com o modo de defesa negro. Não era exatamente uma arte marcial sofisticada, como eu viria a conhecer tempos depois nos meus estudos sobre a cultura oriental, mas uma dança rápida, executada no meio de uma roda animada com palmas e cânticos que misturavam palavras em português e ladainhas africanas. Talvez não fosse propriamente uma dança o que acontecia no centro daquela roda. Os escravos lançavam chutes afiados uns nos outros, dois por vez. Na maioria das vezes os chutes eram esquivados pelo oponente, porém vez ou outra eles acertavam-se. Mas isso não era motivo de desavença entre aqueles dançarinos. No fim de sua vez, eles abraçavam-se rindo e dividiam um copo de aguardente, dando espaço a mais dois oponentes. A mistura de dança e luta, alguns séculos depois, ganharia algum padrão e viria a ser chamada de “capoeira”. Apesar de toda essa balbúrdia, os negros eram espertos o suficiente para evitar que isso chamasse a atenção do nosso senhor. Uma escrava fazia vigília na porta da senzala para avisar de qualquer aproximação suspeita. Sabíamos que a gritaria em “línguas pagãs” poderia perturbar a imaginação fértil dos católicos, na época à sombra da Inquisição. Em pouco tempo eu também já era um exímio lutador daquele estilo, o que logo me daria certos privilégios.

CONTINUA NA PRÓXIMA SEMANA.

Leia a parte 3.

Texto por Zé Wellington.

9 de mai. de 2009

Sebastião: Sangue preto – parte 1

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Era uma senzala escura e imunda. Cheirava a fezes e comida podre. Negros acorrentados em trio, pelas mãos e pelos pés, num elo que nas pontas conectava-se ao chão. As correntes ficavam estiradas de forma que não possibilitassem nenhum movimento: o máximo que se podia era ficar sentado, ao custo dos movimentos dos outros dois colegas com quem se dividia os laços de aço. Eu estava cansado e faminto.

Não sei com precisão quantos dias durou aquela viagem. No navio, eu estava amarrado com cipó numa posição pela qual abraçava minhas canelas. Um pedaço de bambu enfiado entre meus braços e minhas pernas impedia qualquer tipo de mobilidade. Junto comigo, por volta de cem negros no mesmo conforto, enfileirados, de forma a aproveitar da melhor forma possível o espaço do porão da embarcação. Éramos escravos arrancados de nossas famílias.

Até alguns dias antes daquela viagem, eu iria me casar. Não um tipo de casamento como os brancos conheciam na época. Eu havia lutado contra Dumbaô, forma como se pronunciaria o nome do meu melhor amigo nessa língua, e ele morrera em minhas mãos como um bravo oponente, num costume de minha tribo que talvez causasse estranheza à cultura branca. Mas a tradição de lutar por uma esposa não era milenar, e sim uma medida tomada por nosso líder, meu pai, para resolver o problema da falta de mulheres em nossa tribo, fêmeas essas que, uma a uma, estavam sendo tomadas pelo homem branco, ainda crianças, para servir de empregadas ou prostitutas em suas sociedades altamente desenvolvidas. Ficar com Umaiame havia me custado preciosas amizades e alguns túmulos em nosso cemitério.

Na noite do casamento a maior festa que minha tribo já viu se consumou. Como filho do líder da tribo, a mim se passaria o comando do meu povo. Mas eles sabiam que naquela noite estaríamos embriagados com nossas raízes alucinógenas e que não insultaríamos nossos deuses derramando sangue numa cerimônia sagrada. Eles, caçadores de escravos, tinham ainda fogo e pólvora.

Quando os tiros e explosões começaram, meu povo não sabia de que lado eles vinham. Campeando de moitas e ocultos pelas trevas da noite, os brancos acertavam de longe meus irmãos. Atordoados, corríamos sem direção definida. Organizada pelas táticas de guerra de meu pai, nossa tribo havia resistido a outros ataques tempos atrás, mas o barulho da pólvora ensurdecia nossos pensamentos.

Segurando Umaiame, adentrei a selva, correndo desesperado, ignorando os ferimentos nas pernas causados pela vegetação e pelo terreno pedregoso. Ela transpirava, e era impossível diferenciar sua respiração rápida dos soluços amedrontados. Mas o estrondo de um tiro ressoou dentro do meu peito. Ainda correndo, vasculhei meu corpo com minha mão livre. Eu parecia inteiro. Subitamente minha corrida foi interrompida por Umaiame, que ancorava nossa escapada. Eu não deveria ter parado. Não deveria ter chorado por ela. Ela morria e ia para a companhia de Nanã, que protegeria sua alma e a plantaria para que ela pudesse renascer como uma fruta vermelha. Por isso minha tribo não chorava os mortos. Tentei em vão despertar Umaiame. Não deveria ser assim. Ela não deveria morrer ali. O tempo por mim desperdiçado aproximou nossos perseguidores. Quando ouvi os passos, já era tarde. Meu mundo veio abaixo com uma coronhada na nuca.

O que se passou após minha captura não é digno de nota. Logo me dei conta de que os brancos haviam matado somente mulheres, crianças e doentes. Eles procuravam aqueles que pudessem trabalhar na sua terra. Sua nova terra.

Dentro do navio que me traria ao Novo Mundo, meu povo foi misturado com outros com um único ponto em comum: a cor. Negros de todas as tonalidades, crenças e idiomas dividiam espaço no porão. Tive sorte, se é que assim posso chamar, e fui um dos poucos que sobreviveu à alimentação precária, aos maus tratos e às doenças contraídas durante a viagem. No desembarque perdi o contato com meus conterrâneos e já não tinha certeza se ainda vivia alguém da minha tribo.

Era algo próximo ao ano de 1630, até onde me lembro. É difícil ter certeza, por que ainda não entendia o sistema de contagem de tempo branco. Eu tinha por volta de vinte e cinco anos. Fui levado junto com outros escravos até uma propriedade rural há alguns quilômetros do litoral daquilo que se chamaria Brasil. Era o engenho do senhor Antônio Maria Coelho, neto bastardo de Duarte Coelho Pereira, português que no século que havia passado fora donatário da capitania de Pernambuco. Estávamos no período áureo da cana-de-açúcar, grande motivo de eu estar ali.

Fui jogado na senzala que me acolheria como lar e acorrentado nu a outros dois escravos. Logo descobri que os dois vinham de uma mesma tribo, que, acredito, deveria ser próxima da minha, já que conversavam em um dialeto muito parecido com o meu. Estavam já há alguns meses naquele lugar. O mais novo era um jovem forte que deveria ostentar uma idade próxima da minha. O outro, um velho com no mínimo sessenta anos, tinha uma barba branca como osso raspado e olhar que apontava uma experiência secular.

– Por que os ventos de Oyá te trouxeram nesse caminho, meu filho? – disse o velho lentamente, numa expressão cansada e usando velhas palavras do meu idioma.

– Os brancos atacaram covardemente minha tribo durante meu casamento. Mataram meu pai e minha esposa e incendiaram nossas casas – respondi sem poder olhá-lo nos olhos, por conta da posição em que estávamos acorrentados.

– A opressão branca continua. O que eles querem? Toda a terra para eles? Todos os homens da outra cor a seu dispor? – discursava o mais novo em voz alta, como se quisesse atingir a todos os escravos na senzala – E quando iremos devolver essa opressão?

– Quando Ogum achar que é tempo – retrucou o velho sábio num tom de voz tranqüilizante.

– Em Palmares o tempo chegou! E é pra lá que nossa gente deve ir! – respondeu o jovem, que foi seguido de uma gritaria de dentro da senzala.

Logo eu confirmaria que já há muito tempo a semente da revolta estava plantada naquele lugar.

CONTINUA PRÓXIMA SEMANA.

Leia a parte 2.

Leia a parte 3.

Texto por Zé Wellington.


Post-Scriptum: No ar meu segundo conto para o blog (o primeiro foi Mestre dos brinquedos, lembra?)! Espero comentários daqueles que leem esse blog solitário. Próxima semana tem mais!

29 de abr. de 2009

As I Lay Dying - This Is Who We Are (DVD)


Uma das minhas bandas prediletas no momento lançou no dia 14 de abril (por enquanto apenas no states) seu primeiro DVD. Faz um tempão que eu aguardava esse registro oficial ao vivo do As I Lay Dying. This Is Who We Are é um DVD triplo contendo um documentário sobre a banda, uma porção de extras (todos os vídeo-clipes e algumas perfomances ao vivo extras) e um show ao vivo. Aliás, vários shows ao vivo. Achei esquisito quando, assistindo ao DVD do show, de cara a banda tocasse numa igreja, para poucas pessoas, praticamente sem palco e com a iluminação de luzes de natal no fundo. Pensei: "o Killswitch Engage faz um show numa arena lotada e o AILD faz só isso?". Foi quando entendi que não seria apenas um show, mas uma jornada pelo passado da banda! No primeiro show, na Igreja da Comunidade de Seacost, na Califórnia, a banda executa músicas de seus primeiros trabalhos. Para o DVD fora escolhidas duas (Falling upon deaf ears e Forever). Na sequência passamos ao pub Jumping Turtle, em San Diego, onde a banda executa do início ao fim o álbum Shadows Are Security para 250 pessoas, com duas músicas escolhidas para o DVD (Meaning in tragedy e Darkest nights, em perfomances explosivas). No momento seguinte, o DVD pula para seu ápice, com o show no The Grove, para 1.700 pessoas, onde a banda executa na íntegra seu último álbum An Ocean Between Us. Durante todo o DVD os integrantes tagarelam que consideram esse álbum seu melhor trabalho, coisa que eu e a maioria dos fãs com certeza discorda. Mas vá lá... é um puta disco, que fica ainda melhor executado ao vivo com as músicas coladinhas umas nas outras. São oito faixas tocadas para um público insandecido. Depois do show, já começava a ficar um gostinho esquisito na minha boca... Ainda estava faltando algo... Mas o algo veio! Nos depoimentos finais (depoimentos esses que permeiam o DVD inteiro), os integrantes falam sobre grandes shows, tocados para públicos de até 80.000 mil pessoas, como o maior festival de metal do mundo, o Wacken Open Air, na Alemanha, de onde temos duas perfomances ao vivo da banda (o clássico Through struggle e Confined), do With Full Force, também na Alemanha, com uma faixa (Reflection) e ainda do festival americano Cornerstone, com a música que chamou a atenção da mídia para a banda no início da carreira, 94 hours. Caralho! Muita informação, que só vai ser bem processada para aqueles que entendem um pouco de inglês, afinal o DVD mistura em partes iguais show e documentário. No final fica de conclusão que a espera valeu a pena. This Is Who We Are é isto o que o As I Lay Dying se tornou: um dos grandes nomes do metal do novo milênio.

Mais informações aqui e aqui. Gostou do AILD? Não deixe de conhecer a Sobre o Fim.

16 de abr. de 2009

Revival!

Nesses tempos os japoneses resolveram ressuscitar dois de seus animês de maior sucesso em todos os tempos: Dragon Ball e Fullmetal Alchemist. Eu vi os primeiros episódios de cada um e falo o que achei logo abaixo. Como não tenho falado muito de rock por aqui, falo também da continuação do maravilhoso documentário Metal - Uma jornada pelo mundo do Heavy Metal, Global Metal, e ainda do novo CD da banda capixaba Dead Fish, Contra todos. Um verdadeiro revival de informações, afinal trouxeram de volta do meu passado DBZ, FMA e DF!

Nostalgia
Em 1999 eu começava a assistir o animê que me colocaria no mundo dos animês, Dragon Ball Z. Entenda: antes disso eu (como tantos outros adolescentes brasileiros na época) já havia sido fisgado por outro furacão chamado Cavaleiros do Zodíaco, mas DBZ foi "a gota d'água", por assim dizer. Nessa época, a novidade que acabava de chegar ao Brasil já completava 10 anos no Japão. 20 anos depois do lançamento de Dragon Ball Z, chega às TVs do oriente Dragon Ball Kai. Não se trata da tão esperada e especulada continuação de Dragon Ball GT (animê que sucedeu DBZ), mas da revitalização de Dragon Ball Z. O animê original tinha 291 episódios, que foram remasterizados e serão lançados em alta definição. E o melhor: o próprio criador do mangá que originou a série, o genial Akira Toriyama, está editando a série, e já anunciou que essa nova versão terá apenas 100 episódios, ou seja, 191 episódios foram enxugados! Você que não viu DBZ talvez ache isso um cúmulo, mas todos os amantes da série adoraram a novidade. O motivo é simples: como a maioria dos animês shonen, DBZ tinha muita ENROLAÇÃO, que, esperamos, será limada dessa nova versão. Eu vi o primeiro episódio e, apesar de um estranhamento inicial (lembre-se, esse desenho animado é de 1989), até gostei do resultado. A maneira como o mestre Toriyama alterou a ordem de alguns fatos no início do episódio para aumentar a dramaticidade deu um calafriozinho bom, que compensou o traço antigão do animê. Para mim só faltou uma remasterização da abertura original com o classicaço Cha-la Head-cha-la e a maravilhosa dublagem nacional (Goku com voz de mulher no original dói de ouvir...). Nada melhor do que isso para esquecer a tenebrosa adaptação de cinema que estreou esse dias...

A volta da irmandade de metal
Outra volta que animou os fãs japoneses foi a dos personagens de Fullmetal Alchemist. Considero-me suspeito para falar da série, que na minha opinião é um dos melhores desenhos animados em série de todos os tempos (veja bem, eu falei DESENHO ANIMADO e não ANIMÊ, ou seja, incluo tudo de animação que já vi). Fullmetal Alchemist: Brotherhood não é um remake e muito menos uma continuação do original. Ao que parece, o animê parte do ponto onde a animação original difere do mangá. A princípio fiquei um pouco apreensivo com essa versão, afinal é difícil mexer no que é quase perfeito. Sem contar que o final do original (que na verdade terminou num belíssimo filme) para mim é irretocável, e já sei que é bem diferente do final do mangá (que eu só tive oportunidade de ler as três primeiras edições). Ao assistir a nova série, fui rapidamente teletransportado novamente para o universo de FMA. Nem lembrava como tinha gostado do animê. Está tudo lá: os dois cativantes personagens principais com a dublagem original e todos os outros detalhes da intricada trama. Novatos talvez se sintam desconfortáveis de início, por que são jogados dentro do universo sem muitas explicações, mas aos poucos devem ser integrados a história, já que no segundo episódio saberemos mais sobre as motivações de Edward e Alphonse Elric. A animação é simplesmente sensacional, bem melhor do que a já ótima animação original. O primeiro episódio tem cenas de ação muito empolgantes, mas sem sombra de dúvida foca mais no humor, única coisa que estranhei. Fico aguardando o drama que tão bem caracterizou a primeira série nos próximos episódios (e tomara que ele venha mesmo).

Metal pelo mundo
No meu blog antigo falei sobre o maravilhoso documentário Metal - Uma jornada pelo mundo do Heavy Metal (Metal - A headbanger´s journey), apresentado pelo antropólogo canadense Sam Dunn. Quatro anos depois, Dunn viaja ao mundo procurando pelo metal dentro da cultura dos mais diversos países. Mais uma vez o documentarista acerta em cheio no filme, e nos revela curiosidades sobre como pessoas de países extremamente fechados ao estrangeiro têm acesso a um dos estilos musicais mais discriminados do planeta. E a primeira parada é o Brasil, representado principalmente pela banda Sepultura (de quem Dunn é fã), e ainda com entrevistas a integrantes do Angra e do lendário Carlos Lopes, do Dorsal Atlântica (se você gosta de metal e hardcore TEM que conhecer essa banda, a pioneira da junção desses dois gêneros aqui no Brasil). A viagem ainda passa pelo Japão, destacando uma banda que os otakus conhecem bem: X-Japan. E se no primeiro filme o metal norueguês chamou atenção com seu fanatismo religioso, ele faz mais uma macabra participação numa história do metal israelense...

Contra todos (mesmo!)
A banda de hardcore capixaba Dead Fish recuperou seus pontos comigo com seu novo álbum, Contra todos. É o velho feeling de Rodrigo e cia de volta, com uma guitarra apenas, muitíssimo bem conduzida, num álbum direto, que em muito me lembrou o DF que conheci na época do seu álbum mais maduro da fase independente, Afasia. As letra continuam (afinal nunca deixaram de ser) belíssimas poesias urbanas. E o peixe morto realmente é uma daquelas bandas que deveria ser mais conhecida e mais escutada... Mesmo no mainstream o peixe continua fazendo o mesmo hardcore barulhento, contra todas as expectativas! Recomendadíssimo, para aquelas horas em que você quer esmurrar alguém.